domingo, 13 de outubro de 2013

Educação em Pernambuco é tratada assim




Em Pernambuco, estudantes ainda usam pau de arara para ir à escola
Aliny Gama
Do UOL, em Panelas (PE)
12/10/201306h00

O esforço de estudantes do interior do Nordeste para ter acesso à educação anda ao lado do perigo. Sem alternativas, alunos são obrigados a se locomover em cima de carrocerias de carros velhos e inapropriados para chegar à escola.
Apesar de o transporte de pessoas no compartimento de cargas de veículos ser proibido por lei, prefeituras infringem a lei e contratam caminhões e caminhonetes para levar os alunos para as escolas. 

Na última terça-feira (8), o UOL flagrou o transporte de alunos da zona rural do município de Panelas em cima de caminhonetes indo para escolas. Foram quatro veículos fotografados trafegando pela BR-104 transportando alunos para as escolas municipais Joaquim Nabuco, Osvaldo Cruz e Pio XII.
Apesar do perigo, os estudantes dizem que não deixam de estudar para que a família não perca o pagamento do programa federal Bolsa Família, que é pago baseado na frequência escolar do aluno.
A dona de casa Giuvânia Helena da Silva, 25, tem dois filhos frequentando a Escola Municipal Osvaldo Cruz. Ela conta que os filhos, de 9 e 10 anos, esperam cerca de meia hora às margens da BR-104 a caminhonete D-20, de placa MUW-5168, para irem à escola.
"Fico com medo de acontecer algum acidente, mas a gente não tem outra opção para eles irem à escola. Falei com a direção da escola no início do ano e eles disseram que era a única forma de transporte que tinham para oferecer", disse Giuvânia.
Carlos José, 10, diz não se importar em usar o "camburão", como ele chama o veículo. "Minha mãe reclama demais que a gente tem de ter cuidado, mas quando subo no camburão eu nem ligo e vou para escola 'tirando onda' com os meninos. Já pensei em deixar de estudar porque ficar nesse sol quente dá dor de cabeça, mas é até divertido ir brincando em pé no carro", contou.
Sua irmã, Cícera Carla, diz já ter visto ônibus passando pela BR-104 com estudantes, mas de outra cidade. "A gente que é menina vai para a parte do fundo porque é menos perigoso de cair, mas eu queria mesmo era ir de ônibus. É o meu sonho chegar na escola sem poeira e ainda não correr risco de se acidentar", disse a garota de 9 anos.
A agricultora Raimunda Maria da Silva, 53, também afirmou que fica preocupada com o transporte dos dois filhos, mas prefere que eles se arrisquem a que "fiquem sem estudo". "A gente tem de se esforçar para ser alguém na vida. Quando eles sobem no carro começo a rezar até a hora deles voltarem para casa e assim vamos entregando na mão de deus."
Sivoneide Helena da Silva, 26, disse que recomenda para os filhos se comportarem e irem sentados na carroceria da caminhonete que os leva até a Escola Municipal Osvaldo Cruz. "Gostaria muito que eles fossem de ônibus, mas o transporte que é usado aqui na região são essas caminhonetes. Pelo menos o motorista diz que dirige devagar".
O UOL acompanhou parte do trajeto feito pela caminhonete F-1000, de placa AZO-2152, na BR-104 e em estradas vicinais para levar os alunos da zona rural de Panelas para a Escola Municipal Pio XII. 
Num dos pontos de parada para pegar outros estudantes, a reportagem conversou com o motorista do veículo, que se recusou a dizer o nome, e justificou que o "ônibus quebrou e a prefeitura o contratou temporariamente para o serviço".
"Deixe meu trabalho e vá fazer matéria dessa seca aqui na região, mas tome cuidado para não levar um tiro porque aqui é perigoso", disse o motorista, tentando intimidar a reportagem.
De acordo com o do Código de Trânsito Brasileiro, o artigo 230, inciso II, regimenta que a infração é gravíssima e o condutor do veículo levará sete pontos na CNH (Carteira Nacional de Habilitação), além de ser multado e ter o veículo retido.
O UOL entrou em contato com a prefeitura de Panelas, nessa quinta (10) e sexta-feira (11), mas a secretaria de Educação do município não respondeu à reportagem até a publicação da matéria.
Acidentes
Segundo a PRF (Polícia Rodoviária Federal), não existe uma estimativa do número de acidentes com caminhões pau de arara nas estradas brasileiras, porém a ocorrência de sinistros é comum no Nordeste.
Uma criança de 9 anos caiu de uma caminhonete D-20 no dia 19 de setembro deste ano enquanto era transportado para a escola, no município de Várzea Grande (a 547 km de Teresina).
O menino estava sentado na carroceria do veículo com mais 20 crianças, não conseguiu se segurar na carroceria e caiu da caminhonete. Ele sofreu traumatismo craniano e teve de ser operado. 
A prefeitura de Várzea Grande justificou que o transporte de estudantes em cima de carrocerias de veículos ocorre quando os ônibus que prestam serviço ao município quebram e não existe outro transporte disponível.
Um outro acidente envolvendo transporte irregular de alunos ocorreu no município de Apodi (a 335 km de Natal) em julho deste ano. Uma criança de 7 anos foi atropelada por um caminhão pau de arara, que transportava estudantes, enquanto esperava o mesmo transporte escolar na zona rural de Apodi. O menino teve fratura no fêmur e na região da bacia.
Na época, seis carros faziam o transporte de alunos em cima das carrocerias. Em contato com a prefeitura de Apodi, o UOL foi informado, nesta quinta-feira (10), que depois do acidente o transporte de estudantes é feito por ônibus escolares.
Caminho da Escola
O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) informou que destinou R$ 1,26 bilhão a municípios e Estados do Nordeste do Programa Caminho da Escola, entre janeiro de 2011 e agosto de 2013, para aquisição de 6.371 ônibus escolares.
Segundo o FNDE, são repassados recursos federais a municípios e Estados para serem usados na manutenção do transporte escolar ou terceirização do serviço.  "Os entes beneficiados com os recursos precisam prestar contas sobre o uso desses recursos." Ainda de acordo com o FNDE, caso seja comprovado o uso indevido dos recursos, os valores terão de ser devolvidos e as contas podem ser julgadas pelo TCU (Tribunal de Contas da União) com a abertura de uma tomada de contas especial.


domingo, 28 de julho de 2013

As PE's do coroné boquinha

Ligação entre Litoral e Mata Sul nem parece que é asfaltada
Estrda que liga as cidades de Sirinhaém, no Litoral, e Ribeirão, na Mata Sul, está intransitável, denuncia leitor
Publicado em 26/07/2013, às 22h04
 





Vejam a situação em que se encontra da PE-64, que liga Sirinhaém a Ribeirão. É a prova do desrespeito do governo do Estado para com as pessoas que trafegam naquela rodovia.

Compesa empresa sob responsabilidade do coroné boquinha

Moradores de Paulista sofrem com água contaminadaDesde 2011 a água que chega às residências está com o odor e a aparência de esgoto

Mariana Fabrício - Diario de Pernambuco
Publicação: 27/07/2013 14:02 Atualização:

Quatro ruas no bairro de Arthur Lundgren, no município de Paulista, estão com o abastecimento de água contaminado. Desde 2011 a água que chega às residências das ruas Araripina, Alagoinha, Agrestina e Avenida Águas Belas, está com o odor e a aparência de esgoto. Até ontem (25) foram feitas inúmeras ligações para a Compesa, mas nenhuma providência definitiva foi tomada pela companhia. Moradores exigiram a normalização do serviço através de denúncia feita no Cidadão Repórter, fórum de jornalismo colaborativo do Pernambuco.com.

O aposentado Paulo dos Santos, de 75 anos, não sabe mais a quem recorrer para utilizar o serviço que paga todos os meses. Sem condições de uso, a água que chega na casa dele, localizada na rua Agrestina, é desperdiçada, assim como nas demais residências afetadas. "A água que nós recebemos só serve mesmo para descarga, porque quando arriscamos usá-la, adoecemos. Só aqui na minha casa já tivemos várias crises de vômito e diarreia por causa da má qualidade dessa água", conta o senhor que afirma estar utilizando água mineral para realizar os serviços domésticos e de higiene.

Paulo já fez um abaixo-assinado que chegou a reunir mais de cem assinaturas e foi entregue ao corregedor-geral da justiça. No entanto, o resultado do apelo foi apenas temporário. "Depois que houve essa mobilização, melhorou e ficou seis meses alternando entre a água limpa e a contaminada. Mas depois de um tempo percebemos que isso foi apenas um paliativo. Queremos uma solução definitiva", diz.


Apenas na via onde Paulo mora existem três esgotos esborrando gerando um mau cheiro em toda rua e prejudicando ainda mais os moradores. De acordo com os usuários, o entupimento das valas seria a causa da infiltração. "Aqui a água chega a cada dois dias. No primeiro ainda vem um pouco limpa, mas ainda com cheiro forte, então acredito que esteja contaminada e evito usá-la. Além disso, tem esses esgotos escorrendo em frente às nossas casas, que deve ser a causa do problema. Uma equipe veio sábado (20), mas não deu solução", conta a dona de casa Ednalda Sales, 62 anos.

Para a cabeleireira Orciana de Melo, 30 anos, que tem dois filhos pequenos em casa, a dificuldade é de mantê-los longe de contaminação. "Logo no início do problema percebi que o contato com essa água estava provocando algumas doenças. Eles começaram a ter diarreia e vomitaram. Hoje evito que eles tenham qualquer contato", diz.

Já na rua Araripina, uma obra realizada no início deste ano que prometia resolver o problema da infiltração, só provocou mais transtornos, de acordo com a população. O morador Lúcio Ferreira, de 80 anos, conta que a manutenção trouxe prejuízos. "Uma equipe veio aqui instalar duas válvulas e um filtro, que seria para controlar a saída da água. Além de não resolver, me prejudicou porque minha calçada ficou toda quebrada e ninguém veio consertar", reclama.

Procurada pela equipe do Pernambuco.com, a Compesa afirmou que uma equipe irá verificar a situação das ruas afetadas para poder tomar as providências necessárias.



A ponta do iceberg


PF vê fraude em contrato do governo Campos

21/07/2013 - 02h15
FERNANDO MELLO
FERNANDA ODILLA
DE BRASÍLIA
A Polícia Federal pediu abertura de investigação sobre contratos da empresa Ideia Digital com a gestão do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), cotado para disputar a Presidência da República em 2014.
A empresa assinou contratos de R$ 77,5 milhões no Estado para informatizar escolas --já foram pagos R$ 51,2 milhões. Segundo a PF, um dos contratos em Pernambuco tem indícios de superfaturamento. O pedido de investigação foi enviado ao Ministério Público Estadual.

A PF também pede que as investigações sobre outras autoridades sejam aprofundadas --entre elas a do ministro Aguinaldo Ribeiro (Cidades) e a de dois deputados federais.
A Ideia Digital é suspeita de financiar ilegalmente campanhas do PSB e do PSD.
Como a Folha publicou ontem, investigação da PF aponta que verbas de convênio do Ministério da Ciência e Tecnologia com a Prefeitura de João Pessoa foram desviadas para financiar campanha do governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), em 2010.
O dinheiro teria sido desviado em contrato com a Ideia Digital, vencedora de licitação para implantar um projeto de internet grátis em João Pessoa. Na época, Coutinho era prefeito de João Pessoa.
Em dois contratos em 2011, o governo de Pernambuco usou os mesmos critérios usados no caso da Paraíba. Outro contrato foi assinado em 2012.
Em depoimento já no final da investigação da PF, um dos suspeitos afirmou que a Ideia Digital tinha "tinha acesso irrestrito ao próprio Ministério da Ciência e Tecnologia", que foi comandado por Campos em 2004 e 2005.
POLÍTICOS
Como políticos com foro privilegiado só podem ser investigados com autorização do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e do STF (Supremo Tribunal Federal), a PF sugere que as investigações sejam encaminhadas a esses tribunais.
No caso do ministro das Cidades, uma testemunha apontou uma relação entre Ribeiro e representantes da Ideia Digital "antes mesmo do procedimento licitatório". Ribeiro era secretário de Ciência e Tecnologia de João Pessoa quando o programa foi lançado.
A PF também viu indícios de pagamentos da Ideia aos deputados Efraim Filho (DEM-PB) e Valtenir Pereira (PSB-MT) e diz haver "reluzentes suspeitas" de que a empresa pagou R$ 235 mil em material de campanha de Pereira usando empresas fantasmas.




domingo, 14 de julho de 2013

Sociólogo vê Eduardo Campos como imperador a serviço das oligarquias, por mais que tente se enganar


POSTADO ÀS 12:06 EM 06 DE Janeiro DE 2012
A fala do trono

Por Michel Zaidan Filho, especial para o Blog de Jamildo

Sentado na confortável poltrona de couro, da sala de monitoramento do Palácio das Princesas, o governador Eduardo Acioly Campos, filho do escritor Maximiliano de Campos, sobrinho do sociólogo Renato Carneiro Campos e neto do ex-governador do estado, Miguel Arraes de Alencar, concedeu magnanimamente uma entrevista de três horas aos repórteres dos principais jornais de Pernambuco.

O que chama a atenção, antes de tudo, é a sem-cerimônia que caracterizou a conversa do governante com os representantes dos três jornais.

O gestor parecia estar muito a vontade, apesar das reiteradas batidas de mão na mesa, das mãos crispadas e do pé revirado, como os jornais fizeram questão de mostrar.

Eduardo Campos sempre foi uma pessoa tensa e fumava compulsivamente, inclusive em ambientes fechados.

Também sempre pareceu não ter critério alimentar nenhum, ao contrário do ex-prefeito João Paulo da Silva.

A entrevista foi reveladora de vários pontos que talvez o próprio governador não tenha se dado conta: família, oposição, nível da atividade econômica do Estado, relacionamento com o governo federal, a sua base de sustentação a nível estadual e federal, suas relações com o PSDB, o PSD, o PT e outros aliados, o seu modelo de gestão da educação, saúde, segurança, a prefeitura do Recife, suas pretensões políticas para 2014 etc.

Baseado em pesquisas de opinião que lhe dão 90% de aprovação popular, Eduardo Campos exibe uma autoconfiança ilimitada e esnoba a oposição, afirmando que ela corre o risco de falar para 6% da população.

E que o estado vive dias de exuberância econômica, com a vinda de inúmeras empresas para Pernambuco.

Que fêz os maiores investimentos em Educação e Saúde, da história do estado. Que se tornou um interlocutor importante para a reeleição da presidente Dilma, sua prioridade política nacional, apesar das boas relações com Gilberto Kassab, Aécio Neves, Beto Richa e outro

O que o governador Eduardo Campos não deixou claro ou explicitou suficientemente foi a natureza das parcerias, o modelo administrativo, os custos ambientais e fiscais, o grau de patrimonialismo ou familismo que tem caracterizado a sua gestão.

O principal mandatário de Pernambuco fêz referência a Fundação Roberto Marinho e ao Instituto Ayrton Senna, quando fala da educação.

Omite a inovação administrativa que transferiu a saúde para área privada, nem diz que a gestão dos novos presídios é particular, sendo o que o primeiro a ser inaugurado – o de Itaquitinga- já sofreu multas da CPRH por irregularidades ambientais em sua fase inicial de implantação.

Mas grave é, contudo, a criminosa política de atrair investimentos ao custo de concessões ambientais e fiscais, não reveladas à sociedade ou aos contribuintes ou às entidades submunicipais que participam da partilha tributária.

É o caso de se perguntar se o nosso gestor estadual ganhou carta branca para ignorar a lei e conceder favores ou cessão de direitos a particulares, sob a alegação de política de geração de empregos e renda.

É oportuno lembrar que Eduardo Campos se elegeu prometendo combater a “guerra fiscal”, lutar por um novo pacto federativo e uma ampla e justa reforma tributária.

Estranho também é o seu estilo administrativo, caracterizado por um misto de gerencialismo e familismo e inúmeros auditores do Tribunal de Contas, que fazem as vezes de secretários de Governo.

Tudo amparado por uma pletora de estatísticas e aparelhos de alta tecnologia de informação. É o caso de afirmar: tanto tecnologia a serviço de ideias, costumes e modos políticos tão antigos... como as oligarquias de Pernambuco.

Interessante é como governador situa a sua obra administrativa e sua obra como articulador político (presidente do PSB e articulador dos apoios a presidente Dilma no nordeste).

A impressão que fica é que Eduardo Campos tem uma visão meramente instrumental e estratégica da gestão. A sua preocupação não é tanto a qualidade de vida ou a melhoria social da população do estado, mas como transformar isso num ativo de alta especificidade para atuar no processo sucessório estadual e federal.

E aí se revela claramente a natureza de suas alianças políticas: amplitude, diversidade, clientelismo, fisiologismo, adesismo, utilitarismo – desde que tudo isso possa servir de meio, instrumento, moeda para barganhar nos grandes acordos políticos nacionais e estaduais.

Nesta arte, o neto superou com certeza o avô, que fixava limites ou princípios para o seu pragmatismo.

Se Eduardo Campos quer ser alguma coisa (presidente, vice-presidente, ministro, senador etc.) ele não só não dirá, como subordinará toda a sua atividade política a esse objetivo.

É o seu estilo, a sua maneira de atuar.


Possui graduação em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1974), mestrado em História pela Universidade Estadual de Campinas (1982) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (1986). Atualmente é Professor-Adjunto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Tem experiência na área de História e Ciências Sociais, com ênfase em Teoria e Filosofia da História e Sociologia da Juventude, atuando principalmente nos seguintes temas: Juventude; Comunismo, Política, Brasil, Democracia e Política.



domingo, 23 de junho de 2013

Um aliado enrolado


Um aliado enrolado
O TCU condena ex-tesoureiro do PSB a devolver mais de R$ 5 milhões ao governo federal por irregularidades em ONG
MARCELO ROCHA


CONDENADO
Curso em Sergipe promovido pelo instituto Xingó e Gilberto Nascimento, ex-tesoureiro do PSB. Contas rejeitadas (Foto: Prefeitura de Canindé de São Francisco e AlexandroAuler/JC Imagem)

Em 2005, um mês antes de deixar o comando do Ministério da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos abriu as portas da pasta ao Instituto Xingó. Até aquela altura da vida, a ONG firmara apenas convênios modestos com o governo federal. Com o empurrão de Campos, o Xingó teve acesso a uma bolada superior a R$ 12 milhões para realizar cursos profissionalizantes no Semiárido nordestino. Embora sediado em Sergipe, o Xingó concentrou suas ações com dinheiro do ministério no interior de Pernambuco.
Como é comum em histórias em que ONGs, políticos e o governo federal se envolvem, nessa também o dinheiro público foi desperdiçado. Depois de examinar as prestações de contas do Instituto Xingó, o Tribunal de Contas da União (TCU) condenou a entidade e seu ex-presidente Gilberto Rodrigues do Nascimento a devolver R$ 5,7 milhões aos cofres públicos por uma série de irregularidades na execução dos convênios, como má aplicação dos recursos, ausência de licitação e contratação de empresas de familiares de dirigentes. Na hora de prestar contas do que fizera com o dinheiro público, o Xingó incluiu, entre outras coisas, comprovantes de despesas feitas em Maceió, bem longe dos locais dos cursos de profissionalização, e antes da celebração do convênio. Os responsáveis pela entidade afirmaram que as despesas eram essenciais, mas as explicações não foram aceitas pelo TCU.

Em Santa Maria do Cambucá, Pernambuco, o Xingó teria de treinar 90 pessoas num projeto relacionado ao beneficiamento de castanha-de-caju. Os auditores não encontraram fichas de inscrição de alunos. Havia apenas listas de presença e avaliação de “61 supostos participantes”. No Recife, o plano de trabalho previa a capacitação de 220 artesãos para o setor de moda e confecção. Na papelada, constam fichas de inscrição de somente 23 possíveis participantes. Os responsáveis pelo instituto alegaram que a meta não foi atingida por “ausência de público”.
Gilberto Rodrigues Nascimento tem laços políticos estreitos com Eduardo Campos. Nascimento é filiado ao PSB de Pernambuco desde 1991 e já ocupou a estratégica função de tesoureiro do partido. Em 2010, Nascimento foi nomeado por Campos assessor especial de seu governo. Depois, entre abril de 2010 e dezembro de 2011, trabalhou como secretário executivo de Relações Institucionais de Pernambuco. Quando foi nomeado, Nascimento já era alvo de investigações sobre o destino de parte do dinheiro recebido do Ministério da Ciência e Tecnologia.
Em setembro passado, o TCU condenou Nascimento e o Instituto Xingó. Além dos recursos a devolver, Nascimento foi multado em R$ 20 mil. A condenação do TCU pode atrapalhar o projeto político de Nascimento. Ele pretende se candidatar a prefeito de São José do Egito, uma das cidades onde o Xingó desenvolveu projetos reprovados pelo TCU. A condenação imposta pelo Tribunal pode impedir Nascimento de concorrer por causa da Lei da Ficha Limpa.
Pouco antes de receber recursos do governo federal, Nascimento recebera uma notícia desabonadora. Ele foi incluído numa lista do Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE) de “gestores de recursos públicos com contas rejeitadas” por causa de sua gestão na Emater, durante o governo de Miguel Arraes (1995-1999), avô de Eduardo Campos. A lista foi encaminhada em 2006 à Justiça Eleitoral para que as pessoas nela incluídas fossem impedidas de concorrer nas eleições. A informação, pelo visto, não chegou ao conhecimento do governo federal – tanto que o Ministério da Ciência e Tecnologia formalizou os convênios com o Xingó. No ministério, Nascimento esteve pelo menos duas vezes para pedir mais dinheiro para o instituto.
Por meio de sua assessoria, o governador Eduardo Campos afirmou que, embora tenha assinado o primeiro termo de parceria entre o Instituto Xingó e o ministério, não participou das discussões que aprovaram o convênio. Segundo Campos, o convênio foi firmado porque a entidade teria qualificação para tal. Campos disse que conhece Nascimento como “técnico e militante político”, que participou de suas campanhas. Nascimento disse que a decisão do TCU é provisória e está sendo contestada por documentos que comprovam as ações da ONG. “O TCU contestou despesas que, embora indispensáveis para o funcionamento do instituto, não constavam do plano de trabalho do convênio”, diz Nascimento. “Não houve desvio de dinheiro.”
Em 2011, o governador Eduardo Campos deu uma grande demonstração de força e habilidade políticas. Campos montou uma campanha avassaladora que elegeu sua mãe, a então deputada Ana Arraes (PSB-PE), ministra do Tribunal de Contas da União. Ana Arraes assumiu em outubro. Naquela ocasião, Nascimento e o Instituto Xingó haviam sido condenados pelo Tribunal fazia mais de um mês. A ministra Ana Arraes não participará do julgamento de um eventual recurso apresentado por Nascimento e o Instituto Xingó ao TCU, já que está em uma turma diferente.



Contratos da Delta com governo de PE pularam de R$ 2 mi para R$150 mi

Contratos da Delta com governo de PE pularam de R$ 2 mi para R$150 mi
Publicação: 14/05/2012 07:20 Atualização:

Pernambuco, berço da construtora Delta, envolvida no escândalo Carlinhos Cachoeira, é solo fértil para a prosperidade e vigor da empreiteira. A evolução nas cifras dos contratos milionários firmados com o governo pernambucano nos últimos seis anos impressiona. Em 2005, durante a gestão do então governador e atual senador, Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), o estado pagou R$ 2 milhões à empresa. Em 2006, quando assumiu o vice Mendonça Filho (DEM-PE), foram R$ 3,5 milhões. No governo Eduardo Campos (PSB-PE), tendo o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) como principal combustível, o cofre pernambucano da Delta engordou de maneira sistemática. Só no ano passado, a construtora embolsou R$ 105 milhões. Neste ano, até o momento, já existem cerca de R$ 50 milhões empenhados.

De 2007, quando Eduardo Campos assumiu o poder, para cá, a construtora recebeu R$ 250 milhões por contratos de obras das Secretarias de Cidades e Transportes e também de órgãos públicos, a exemplo do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-PE) e da Companhia Estadual de Habitação e Obras (CEHAB). A assessoria de imprensa do governo de Pernambuco encaminhou nota ao Correio confirmando que havia obras no estado tocadas pela Delta. Percebendo a repercussão negativa após o escândalo em decorrência das Operações Vegas e Monte Carlo, o governador resolveu abrir procedimento para fazer uma devassa em todos os contratos da construtora.